Eu guardava um bosque de pinheiros altos que se estendia por todo o vale. A tua casa ficava à saída da aldeia. Nos dias de folga vestias uma saia com flores e descias o carreiro que terminava na minha cabana. Levavas num cesto de palha sob o braço, os frutos do teu pomar. Na véspera eu caçava um coelho e montava o espeto. Pelo fim da manhã, na manta de quadrados vermelhos, aquecíamos as mãos na fogueira e falávamos no Verão em que iríamos à praia. Houve duas noites em que a tua avó foi à cidade e tu ficaste para jantar.
Há quanto tempo começou a guerra?
Estarás ainda sentada à minha espera, junto ao portão que eu pintei de verde?
Terei tempo para te contar a guerra?
Dir-te-ei que o teu rosto não mudou, que o teu olhar me manteve atento quando todos adormeceram, que a tua voz há-de apagar o eco da batalha travada ao amanhecer. Saber-te-ei mostrar que se voltar será para te levar comigo? Que te virei buscar para nos juntarmos aos que partiram em direcção ao passado, cada vez mais longe, onde não há fim porque tudo findou? Que os mortos dançam porque já não podem morrer?
Andavas sobre a água e vieste de tempos que desconheço. As tuas palavras atiçaram o fogo lento que me abraçava. Os teus olhos eram-me estranhos, mas adivinhei-te o corpo. Deixaste este país por outro e a minha alma quebrou de não te saber o rumo. Havia então modos de chegar ao Norte e os glaciares não passavam de visões. Agora as marés cortaram os caminhos e impedem-me de ver – que traços terás pintado, que destino te escolheu? Eu faço mapas noite fora, armo os meus navios e consulto os sábios – mas estes são cegos e falam-me apenas de um encanto longínquo, de oceanos em fúria e de tormentos sem fim.
Esta é a montanha que em breve esconderá o sol. Aqui a noite é mera obra de uma fortuna adversa. As palavras não passam de silêncios cortados. Nem as bombardas nem os alaúdes sabem afastar a escuridão. Para acender fogueiras precisamos de lenha, e a floresta começa no fim do vale. Ninguém lá vai…
Sete, oito séculos terão decorrido desde a queda do império. Os mais afoitos partiram há muito. Nós os que restamos, não sabemos por quem esperar. Vivemos de temores, procurando abrigos nas ruínas de pedra. Temos medo. Não somos bárbaros, como esses povos para além do Reno. Aqui havemos de ficar.
E tu, porque vieste até aqui?
Julgavas poder sair?
Olha, aquele vulto que rola pela encosta abaixo é sísifo, caindo cada vez mais.
A canção que escutas, austera e grave, não é tocada por músicos, mas pela memória. Lembra-te. Já fomos pequenos e assustados, o nosso mundo já acabou no fim do mar e tinha então por fronteiras as terras áridas dos infiéis. Não sabíamos explicar a passagem certa das estações e os mistérios do firmamento. Cada um tinha a sua sorte e por todos velava Deus. Hoje os assombros de sempre acordaram de um sono antigo. Tão pouco mudou. Avançamos ainda por entre o céu e o inferno.
Ouve melhor: a noite como um grito amargo e Árabe.