Eu guardava um bosque de pinheiros altos que se estendia por todo o vale. A tua casa ficava à saída da aldeia. Nos dias de folga vestias uma saia com flores e descias o carreiro que terminava na minha cabana. Levavas num cesto de palha sob o braço, os frutos do teu pomar. Na véspera eu caçava um coelho e montava o espeto. Pelo fim da manhã, na manta de quadrados vermelhos, aquecíamos as mãos na fogueira e falávamos no Verão em que iríamos à praia. Houve duas noites em que a tua avó foi à cidade e tu ficaste para jantar.
Estarás ainda sentada à minha espera, junto ao portão que eu pintei de verde?
Terei tempo para te contar a guerra?
Dir-te-ei que o teu rosto não mudou, que o teu olhar me manteve atento quando todos adormeceram, que a tua voz há-de apagar o eco da batalha travada ao amanhecer. Saber-te-ei mostrar que se voltar será para te levar comigo? Que te virei buscar para nos juntarmos aos que partiram em direcção ao passado, cada vez mais longe, onde não há fim porque tudo findou? Que os mortos dançam porque já não podem morrer?
Sete, oito séculos terão decorrido desde a queda do império. Os mais afoitos partiram há muito. Nós os que restamos, não sabemos por quem esperar. Vivemos de temores, procurando abrigos nas ruínas de pedra. Temos medo. Não somos bárbaros, como esses povos para além do Reno. Aqui havemos de ficar.
E tu, porque vieste até aqui?
Julgavas poder sair?
Olha, aquele vulto que rola pela encosta abaixo é sísifo, caindo cada vez mais.
Ouve melhor: a noite como um grito amargo e Árabe.
No comments:
Post a Comment